Consequências persistentes do Tarifaço de Trump no Rio Grande do Sul: impacto profundo no setor calçadista, no emprego e na indústria exportadora brasileira
Meses após a adoção das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, o chamado Tarifaço de Trump continua produzindo efeitos severos sobre a economia do Rio Grande do Sul e de diversos setores estratégicos do país. Os reflexos negativos, que inicialmente pareciam conjunturais, revelam-se agora estruturais, atingindo desde a indústria calçadista — uma das mais tradicionais e empregadoras do estado — até cadeias de alto valor agregado, como tabaco, madeira, metalurgia e curtumes.
O setor calçadista, símbolo da indústria gaúcha, vive seu pior outubro em uma década. Segundo a Abicalçados, foram fechadas 1,65 mil vagas no Brasil apenas no mês, resultado direto da retração nas exportações e da perda de competitividade frente à sobretaxa americana. O estoque de empregos recuou para 294,22 mil postos, queda de 0,6% em relação ao ano anterior. No Rio Grande do Sul, o impacto é ainda mais dramático: 910 vagas foram encerradas apenas em outubro, e nos três meses de vigência do tarifaço o estado já acumula 1,83 mil demissões, reduzindo o quadro para 80,63 mil empregos diretos — retração de 4,8% na comparação anual.
A perspectiva futura acende sinal de alerta. A Abicalçados projeta que, se a sobretaxa não for revertida, o setor pode perder até 8 mil postos diretos em 2026, com maior concentração de danos na Região Sul (51%). Isso ocorre porque para muitos fabricantes — inclusive curtumes e fábricas de componentes — os Estados Unidos absorvem entre 70% e 90% de toda a produção, tornando inviável manter operações sem acesso competitivo ao mercado norte-americano. Exemplos concretos já aparecem: curtumes como o de Portão, na região metropolitana, foram obrigados a conceder duas férias coletivas seguidas, afetando toda a cadeia de couro.
Os efeitos também se espalham para além dos calçados. Os dados oficiais mostram que as exportações do Rio Grande do Sul para os EUA despencaram 18,6% em agosto e 51,5% em setembro, representando uma perda de US$ 118,4 milhões em apenas dois meses. Setores fundamentais da pauta gaúcha foram duramente atingidos:
• Fumo não manufaturado: queda de US$ 51,8 milhões;
• Armas e munições: retração de US$ 24,6 milhões;
• Celulose: queda de US$ 19 milhões, mesmo sendo produto isento da nova tarifa.
A indústria madeireira, por sua vez, enfrenta um cenário crítico: entre 500 e 600 demissões foram registradas, com empresas reduzindo produção ou encerrando atividades. As exportações de madeira para os EUA caíram violentamente, em alguns casos chegando a reduções entre 10% e 90%, conforme relatos do Sindimadeira.
O impacto sobre o setor de tabaco — um dos maiores responsáveis pelo superávit gaúcho — também é expressivo. Com uma queda de 94,1% nas exportações para os EUA, empresas suspendem embarques e aguardam negociações diplomáticas para evitar efeitos ainda mais graves sobre produtores e indústrias em 2026.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o Rio Grande do Sul será o segundo estado mais afetado do Brasil, com perdas que podem chegar a R$ 1,9 bilhão, atrás apenas de São Paulo. Isso porque setores altamente dependentes do mercado americano são fortemente concentrados no território gaúcho. Atualmente, cerca de 1,1 mil indústrias do RS exportam para os EUA, empregando 145 mil trabalhadores.
Entre as cadeias mais expostas estão:
• Armas de fogo: 86,6% das vendas vão para os EUA;
• Tabaco: US$ 233 milhões exportados em 2024;
• Madeira: US$ 102,8 milhões;
• Móveis, arroz e produtos metalmecânicos, todos com forte dependência do mercado americano.
O grande risco é que a combinação de queda de mercados, incerteza jurídica e tarifas elevadas reduza investimentos, provoque deslocamento industrial e incentive concorrentes internacionais a ocupar o espaço deixado pelo Brasil nos Estados Unidos — movimento que já está em curso.
O cenário, portanto, exige ação coordenada. Entidades setoriais e especialistas apontam que apenas uma negociação diplomática efetiva poderá evitar danos permanentes às cadeias produtivas do Sul do Brasil. Sem reversão do tarifaço, estados como o Rio Grande do Sul correm o risco de enfrentar não apenas perdas bilionárias, mas uma reconfiguração profunda de sua estrutura industrial e de empregos.
